Carta


É fato que fomos. Mas seria muito esquisito me despedir de você cumprindo todos os pré-requisitos dos dramas clássicos. Prefiro acreditar que você foi uma chuva precipitada que eu só tive coragem de experimentar por detrás da vidraça. Assim, como já fizemos tantas vezes com outras pessoas.
Também queria te dizer que só vou me entregar à outra narrativa quando ela se tornar uma história coesa, coerente, bem elaborada. Renuncio desde agora às relações em que todos os passos levam apenas a um contato irremediavelmente externo com a palavra.
Eu gosto mesmo é de misturar agudezas com tons graves. Bem se vê na escala cromática dos meus sentimentos.
Meus amarelos tão vivos, primitivos.
Meus vermelhos tão trêmulos. Minhas cores acesas, em brasa.Mas, no meio disso tudo, quero te contar que ando tão emendada em eventos sociais que sinto saudade da minha solidão. Ela tem o aspecto positivo de não me deixar me perder de vista. Eu preciso me olhar bem por dentro, de tempos em tempos, por um bocado de dias pra que eu continue merecendo minha poesia.
É diferente da solidão que se sente quando se está acompanhado: neste caso, perdemos de vista o outro. E tenho estado muito feliz, antes que você pergunte. Tenho mania de adiantar momentos incríveis com a força do meu pensamento, você sabe. Depois eles se materializam e eu os celebro.

Então, janeiro foi embora sem se despedir...
FERVEreiro no Rio,e ontem foi dia de Iemanjá. Pensei em jogar palmas no mar como tantos, mas não tive coragem, ele estava engasgado com tanto lixo: herança de um domingo de sol.
Deu até aperto no peito.
Nenhuma onda e o mar calmamente imundo. Nem era sobre isso que eu ia falar.
Mas esses assuntos que mudam de rumo repentinamente se parecem muito com nós dois: desejo e poluição. E a impossibilidade de mergulhos.

(É fato o que fomos.)
Marla de Queiroz

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